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O PAPEL DO AGRONEGÓCIO NA EVOLUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO FEMININA NO MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO

7 de março de 2021

O PAPEL DO AGRONEGÓCIO NA EVOLUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO FEMININA NO MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO

Iniciando a análise da realidade nacional, e do papel do agronegócio para os resultados do País, dividiu-se as mulheres em dois setores excludentes: empregadas no agronegócio e empregadas em outros setores da economia. Para ambas as divisões, calculou-se a PFPO (participação das mulheres na população ocupada de cada setor) e a participação do setor na população ocupada no país (POP) – homens e mulheres – para os anos de 2004 e 2015. A partir dessas informações, foi possível calcular os efeitos tamanho (ET) e incidência (EI)³ referentes ao aumento de 1,92 p.p. na participação de mulheres no total de ocupados no Brasil (PFPOBRASIL). Em outras palavras, calculou-se em que medida a elevação da participação feminina na população ocupada do Brasil (PFPOBRASIL) esteve atrelada a mudanças no tamanho relativo do mercado de trabalho dos diferentes setores – agronegócio e demais (ET) – e/ou a uma intensificação do total de mulheres participando do mercado de trabalho em cada um dos setores (EI).

Entre 2004 e 2015, o número de mulheres empregadas no agronegócio aumentou consistentemente, registrando crescimento de 8,32% no período. Contudo, essa evolução positiva não ocorreu de maneira sistemática entre os diversos grupos socioeconômicos de trabalhadoras.

Ao analisar os cinco perfis de trabalhadoras que mais influenciaram no desempenho positivo do número de mulheres empregadas no agronegócio (Figura 1), destaca-se a presença de casadas e solteiras com mais de 30 anos e ensino médio (149,35%); casadas com mais de 30 anos e ensino superior (46,17%); casadas com 30 anos ou menos e ensino superior (22,66%) e solteiras com mais de 30 anos e ensino superior (20,95%).

No que se refere aos perfis que desfavoreceram o crescimento da população de mulheres ocupadas no setor, nota-se a participação de casadas, com 30 anos ou menos e ensino fundamental (75,70%); solteiras, com 30 anos ou menos e ensino fundamental (32,55%); solteiras, com mais de 30 anos e sem instrução (29,22%); casadas, com mais de 30 anos e sem instrução (22,39%) e casadas, com 30 anos ou menos e sem instrução (6,34%). Ao contrastar as diferentes dinâmicas apresentadas pelos grupos destacados, nota-se a importância que o aumento da presença de mulheres acima de 30 anos e com relativamente melhores níveis de qualificação exerceu sobre o crescimento da população de ocupadas no agronegócio. No outro extremo, predominaram entre os grupos com altas contribuições negativas aqueles com mulheres de baixa instrução, sejam casadas ou solteiras, e para os diferentes grupos de idade. Esses resultados decorrem de mudanças importantes na estrutura do mercado de trabalho feminino no agronegócio. A tendência consistente de mudança do perfil dos empregos em direção a posições de maior escolaridade reflete o surgimento de oportunidades de postos de trabalho de maior qualidade para as mulheres nesse setor, com possíveis impactos positivos na produtividade do trabalho e nos salários médios. Por um lado, esse movimento atrela-se ao crescimento das agroindústrias e das atividades do segmento de agrosserviços. Ainda, conforme já verificado em outros estudos relacionados ao mercado de trabalho do agronegócio, tem sido crescente, mesmo na agropecuária, a exigência de qualificação dos trabalhadores, o que corresponde a maiores modernização e tecnificação do trabalho no campo. Não obstante, o fato de mulheres com 30 anos ou mais ocuparem mais vagas no mercado de trabalho reflete-se em uma maior massa salarial² oriunda do agronegócio sendo absorvida por um segmento da população que geralmente detém grandes responsabilidades no sustento dos domicílios. No entanto, é importante que novos estudos e políticas públicas venham a lançar foco sobre a realocação das mulheres que deixaram de participar da população ocupada no agronegócio, sobretudo aquelas acima de 30 anos e com baixo grau de instrução, em virtude da relativa maior fragilidade econômica que tais perfis podem apresentar.

Os resultados obtidos demonstram que 56,21% do crescimento observado na PFPOBRASIL no período analisado foram consequência de uma intensificação da entrada de mulheres no mercado de trabalho (frente ao número de homens), ou seja, representam o chamado efeito incidência e são explicados a partir das alterações sociais, econômicas e culturais que ocorreram em nossa sociedade nas últimas décadas. Nota-se, ainda, que esse resultado se concentrou em grande medida no agronegócio (54,41%). Já os 43,79% restantes estão relacionados ao efeito tamanho. Nesse caso, o resultado reflete a redução relativa do agronegócio no total de ocupados no País, combinada ao fato de que a taxa de participação feminina no setor se manteve mais baixa que a dos demais setores no período. Então, no que se refere à dinâmica setorial, nota-se que, apesar de o agronegócio apresentar uma relativa menor participação na população ocupada brasileira (21,63% em 2015), o crescimento mais expressivo de 3.86p.p. na PFPOAGRO fez com que o setor contribuísse de maneira relevante para a evolução positiva da PFPOBRASIL. Ou seja, como a participação feminina na força de trabalho cresceu em maior intensidade no agronegócio do que nos demais setores, essa dinâmica do setor exerceu uma influência positiva na taxa de participação feminina no Brasil como um todo. A título de comparação, tem-se que a elevação da PFPOOUTROS foi de 0.05p.p. no mesmo período. Por sua vez, vale ressaltar que a intensificação da PFPOAGRO pode ser atribuída não apenas ao aumento do número de mulheres trabalhando no agro, mas também a uma queda expressiva no número de homens atuando no setor, que tem ocorrido sobretudo no segmento primário ou “dentro da porteira”. Durante o período analisado, houve o ingresso de 384.582 mulheres em postos de trabalho relacionados ao agronegócio, contra uma redução de aproximadamente 1,65 milhão de homens. Esse descompasso entre a evolução de trabalhadores e trabalhadoras no setor tem contribuído para o crescimento da PFPOAGRO.

FONTE: Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq/USP

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