Notícias e Eventos

PRESENÇA DE MULHERES NO AGRONEGÓCIO AUMENTA

7 de março de 2020

PRESENÇA DE MULHERES NO AGRONEGÓCIO AUMENTA

O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, começou a divulgar um amplo estudo em que, pela primeira vez, dedicou-se a entender ao mesmo tempo a presença feminina no campo tanto da porteira das fazendas para dentro quanto para fora, incluindo-se aí agroindústria, transporte, varejo e outras áreas correlatas. Entre outras descobertas, a pesquisa constatou que, entre 2004 e 2015, o número de mulheres no agronegócio aumentou em 8,3%.

Além de estarem mais presentes, as vagas ocupadas pela população feminina são melhores. A participação das trabalhadoras com ensino superior na área foi de 7,6% para 15% no período. Já aquelas com ensino médio, que antes representavam 31% do total, foram para 42%. Na outra mão, as vagas para funcionárias sem instrução caíram de 11,3% para 5,6%. Já as ocupadas pelas mulheres que cursaram apenas o fundamental caíram adequadas e únicas, gerando de 50,6% para 37,3%.

Com a maior qualificação, a participação feminina no agro também envelheceu. O maior peso do crescimento foi dado pelas mulheres casadas e com mais de 30 anos de idade. “O aumento da formalização dos postos de trabalho ocorreu na economia como um todo e para os dois sexos nesse período”, afirma Nicole Rennó Castro, pesquisadora da equipe de macroeconomia do Cepea e uma das coordenadoras do trabalho. “Para o agronegócio, foram criadas vagas bastante qualificadas, que foram ocupadas por mulheres de maneira mais acentuada.”

Além do crescimento do agronegócio de maneira geral, que equivalia a 23,5% do PIB em 2017, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a evolução da tecnologia e mudanças no processo produtivo favoreceram a tendência. “O agronegócio de hoje não é mais o da força física”, afirma José Luiz Tejon, professor e coordenador do MBA da Audencia Business School, em Nantes, e responsável pelo conteúdo do congresso. “A tecnologia transformou semeadeiras e colheitadeiras em máquinas de altíssima tecnologia e, com essa disrupção, não é preciso músculos – e sim estudo – para tirar delas o melhor resultado.”

A maior presença de grandes corporações e o fato de muitos cargos terem aparecido no setor de serviços – 81% das trabalhadoras do agronegócio moram em cidades – também ajudaram a multiplicar as oportunidades. Como resultado prático, se constata, por exemplo, que o número de alunas das área de engenharia agronômica, florestal e de gestão ambiental da Esalq/USP passou de 36% para 44% do total entre 2002 e 2016.

Na outra ponta, a participação das mulheres mais velhas e, consequentemente, líderes na área, também cresceu. Enquanto em 2004 11% das produtoras rurais eram mulheres, em 2015 elas somavam 15% do total. A maior parte delas se dedica à pecuária, que exige menos recursos, mas também gera menos riqueza.

A feminilização no agronegócio não passou despercebida pelas empresas. De portais de notícia, blogs e canais no YouTube a consultorias especialistas em promover a igualdade de gênero na área, passando por muitos seminários e encontros, as corporações fazem questão de marcar presença no movimento.

Foi depois de participar de um encontro que reuniu 700 produtoras rurais no Rio Grande do Sul que os organizadores do congresso realizado em São Paulo suspeitaram haver espaço para um evento de porte nacional. Resolveram, em 2016, criar o congresso, esperando 300 participantes. Receberam o dobro de inscrições. Na segunda edição, em 2017, havia mil mulheres. Já no ano passado, o encontro foi planejado para receber 1.500 inscritas. Participaram 1.600 “Se tivesse espaço para 2.000, teria lotado”, diz Alexandre Marcilio, diretor da Transamerica Expo Center, responsável pelo evento. “Havia um hiato da voz da mulher nessa área porque muitas têm presença ativa nos núcleos familiares, sem conseguir o mesmo espaço para se expressar.”

A busca pelo aprendizado e pela construção de uma rede de apoio é mencionada com muita frequência pelas mulheres presentes no congresso. “Fui aprendendo aos poucos com os funcionários, meu cunhado e os cursos da cooperativa”, diz a citricultora Marilza Beraldi, de Paranavaí (PR). Ela também herdou uma fazenda há quase 20 anos, com a morte do marido. À época com 39 anos de idade e três filhos, ela tinha apenas o diploma do ensino médio e foi cursar administração de empresas para poder cuidar da fazenda.

Elza, por exemplo, criou os filhos com a produção da fazenda após a morte do marido. Dirige 2.000 km a cada 15 dias porque os filhos moram em São Paulo. Manteve esse estilo de vida por também gostar das opções culturais da cidade e de se vestir sem parecer masculina, como é obrigada quando está na fazenda, para não perder o respeito conquistado a duras penas. Também faz parte de um grupo de WhatsApp do qual participam apenas produtoras.

É uma realidade que parece estar se espalhando pelo país. Primeira mulher a ocupar uma diretoria da Sociedade Rural Brasileira (SRB) nos cem anos de existência da entidade, Teka Vendramini diz ter percorrido o Brasil, nos últimos dois anos, participando de dezenas de encontros apenas de mulheres, compartilhando suas histórias e aprendizados. “O Brasil inteiro está se organizando em cooperativas e formando núcleos femininos”, afirma Teka.

Fonte: Valor Econômico.

 

X